Artigo: "O PNLD e o reaproveitamento de conteúdos nas versões digitais dos livros didáticos"
Fonte: Bytes & Types   
Qua, 12 de Fevereiro de 2014 / 08:50

PNLDAno após ano, o Plano Nacional de Livro Didático - PNLD força as editoras brasileiras a incrementar seus departamentos produtivos e a reinventar o seu trabalho para deixar de produzir apenas a versão impressa – estática e analógica – e incluir versões digitais interativas, com uso de técnicas de reaproveitamento dos conteúdos

*Por Ricardo Minoru Horie

Já há décadas, o governo federal brasileiro faz, anualmente, a compra e distribuição gratuita de milhões de exemplares de livros didáticos para alunos e professores da rede pública de ensino, por meio do Programa Nacional de Livros Didáticos - PNLD. Os editais de cada edição do programa são lançados com antecedência de dois anos pelo Ministério da Educação e o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação - FNDE com as especificações do governo para a confecção dos livros.

Analisando os últimos editais dos PLND de 2013, 2014, 2015 e 2016, e seus respectivos sumários executivos, nota-se que com o decorrer dos anos o governo brasileiro deixou de apenas sugerir que as versões digitais fossem entregues junto com os lotes das obras impressas, e passou a exigir isto das editoras vencedoras dos editais de cada ano. Em 2013, por exemplo, a entrega de uma versão digital (sem conter mais detalhes sobre formato ou qualquer especificação técnica) foi apenas sugerida. O edital de 2015 já era bem mais detalhado e exigente do ponto de vista técnico no que se refere e essas versões digitais dos livros.

O objetivo de se entregar as versões digitais aos professores (e também aos alunos) é facilitar e incentivar o processo de pesquisa, seja por meio de buscas dentro das próprias obras, seja extrapolando os seus limites por meio dos recursos dos dispositivos eletrônicos usados para sua visualização: computadores de mesa, notebooks e tablets. Por isso, se no PNLD de 2015 há a exigência de que o conteúdo das versões impressas esteja inserido na íntegra dentro das versões digitais (inclusive com paridade de páginas), no de 2016 essa paridade entre versões deixou de ser exigida. A intenção seria estimular que as versões digitais tenham mais conteúdo do que as versões impressas.

A despeito de uma série de decisões econômicas, políticas, sociais onde o governo federal frequentemente toma decisões descabidas de racionalidade, responsabilidade e justiça, ao menos nos PNLDs de 2015 e 2016, sob a ótica dos professores e alunos da rede pública de ensino e em relação às exigências técnicas para as versões digitais, minha opinião como cidadão, contribuinte e educador é de que o bom senso triunfou.

PRINCIPAIS EXIGÊNCIAS DOS EDITAIS DO PNLD 2015 e 2016 PARA AS VERSÕES DIGITAIS DOS LIVROS

O edital de 2015 especificava que as editoras inscrevessem suas obras em dois tipos de composição:

  • Tipo 1: Obra Multimídia, composta de livros digitais e livros impressos
  • Tipo 2: Obra Impressa, composta de livros impressos e PDFs

Nas obras Tipo 2, a versão PDF podia ser uma cópia do PDF enviado à gráfica, apenas sem as marcas de corte e registro e com as imagens com resolução reduzida para 225 pixels por polegada, bloqueado para impressão. Já o de 2016 recomenda que a resolução das imagens seja de 150 dpi. 

Já nas obras Tipo 1, a versão PDF além de atender as especificações do Tipo 2, deve ter o conteúdo incrementado com uso de objetos educacionais: elementos como vídeos, arquivos de áudio, uso de animações em textos, gráficos, tabelas, mapas e infográficos, jogos educacionais e tutoriais. Permite-se também o uso de hyperlinks internos (direcionamento para outras páginas ou seções do livro) e hyperlinks externos (para um site na internet, por exemplo). Ou seja: elementos interativos para o professor e os estudantes.

Se o edital de 2015 era carente de especificações técnicas detalhadas, o de 2016 não é muito diferente e suas exigências também são poucas, mas importantes. Estas foram decisivas para balizar as editoras em relação às tecnologias e formatos disponíveis no mercado que têm possibilidade de atendê-las em suas necessidades, de forma coerente com a realidade brasileira das escolas públicas, sejam elas localizadas nos grandes centros urbanos quantos nos rincões menos desenvolvidos do País. Seguem as principais exigências:

  • 0s alunos e professores deverão ter acesso gratuito e livre aos livros digitais correspondentes aos livros impressos escolhidos pela respectiva escola, por meio de log-in e senha a serem fornecidos pelo editor para cada exemplar impresso.
  • Aos editores cabe a responsabilidade de prover a infraestrutura, a segurança e os sistemas de distribuição utilizando-se da Internet.
  • 0s livros digitais deverão ter, como requisito mínimo de padronização, acesso multiplataforma e compatibilidade com os principais sistemas operacionais: Android 2.3 ou posteriores, i0S, Linux (Ubuntu) e Windows 7 (ou posteriores), para dispositivos como computadores desktop, notebooks e tablets.
  • 0s livros digitais deverão permitir a utilização sem necessidade de conexão permanente à Internet, exceto na ocasião do primeiro acesso ao material.
  • 0 endereço do domínio virtual do editor para disponibilização dos livros digitais deverá ter o formato www.nomedaeditora.com.br/pnld/xxxx.

MIGRAÇÃO E CONVERGÊNCIA DE CONTEÚDOS

Uma característica do processo de produção dos livros didáticos (independente da destinação e do PNLD) é que o foco central de planejamento das editoras ainda é voltado para o livro impresso. Em todo o mundo, salvo raras exceções, livros impressos são diagramados em aplicativos de layout e construção de paginas, um mercado atualmente dominado pelo aplicativo InDesign, da Adobe. Na maioria dos casos, arquivos de InDesign são editados, revisados, emendados, consolidados e finalizados para gerar uma versão final destinada à impressão nas gráficas.

É a partir desse documento finalizado de InDesign que o conteúdo eventualmente deriva para outros formatos eletrônicos, como PDF, HTML, XML, DOC, Folio, ePub, Mobi, dentre outros. Isto é feito por meio de recursos oferecidos pelo próprio aplicativo, ou com auxílio de módulos complementares (plug-ins) e soluções desenvolvidas por terceiros, normalmente empresas especializadas em sistemas de gestão de conteúdo (CMS). Ou seja: o arquivo “gráfico” de InDesign é a chamada “Single Source”, fonte que alimenta de conteúdo as outras mídias digitais derivadas – ainda que ele possa a vir a ser retroalimentado, como no caso de correções e alterações. Daí a necessidade da convergência de conteúdos e do reaproveitamento de conteúdos em mídias diferentes.

Neste artigo, vamos nos focar nas aplicabilidades – pontos fortes e fracos – dos principais formatos e tecnologias hoje disponíveis para os livros digitais com vista às exigências do PNLD 2015 e 2016.

PDF “estático”

Um PDF bem construído (corretamente diagramado, arte-finalizado e gerado) pode ser lido em qualquer tipo de computador que use um sistema operacional moderno (mesmo nas suas versões mais mais antigas). Também pode ser lido nos principais dispositivos portáteis (tablets, smartphones, netbooks, notebooks etc.); em navegadores de Internet (web browsers), seja de forma nativa ou com auxílio de complementos (plug-ins ou aplicativos) de distribuição gratuita.

Trata-se de uma tecnologia bastante madura, que foi desenvolvida pela Adobe, e hoje possui licenciamento aberto. Especialmente importante no caso de livros didáticos, o PDF preserva integralmente o projeto gráfico. o tamanho dos textos e toda a diagramação dos elementos de página – que geralmente são montados de acordo com o conteúdo e faixa etária dos alunos de cada série. Um PDF de boa qualidade pode ser obtido a partir de aplicativos mais antigos de layout, como o PageMaker.

Com exceção de textos convertidos em imagens bitmap (fotos e ilustrações), o PDF permite manter o conteúdo de textos e desenhos vetoriais acessível a indexação, pesquisa e catalogação.

PDF Interativo

O PDF interativo possui as mesmas características do PDF “estático”, mas pode conter também vídeos, áudios, botões de navegação e até hyperlinks internos e externos – o que o tornam um livro digital do Tipo 1. Estes elementos multimídia podem ser acrescentados ao PDF já pronto com uso do aplicativo Adobe Acrobat Pro, por exemplo, ou ainda durante o processo de arte-finalização por meio dos recursos do próprio InDesign e de algumas soluções disponibilizadas pelos sistemas de gestão de conteúdo.

Os livros em PDF também têm seus pontos fracos. O principal é não oferecer um design dinâmico responsivo, ou seja, seu conteúdo não se adapta ao tamanho da tela do dispositivo onde está sendo visualizado para facilitar a leitura. O segundo é que, devido à característica de preservar o layout e a diagramação dos elementos de página similares às do livro impresso, seu arquivo costuma ser mais pesado que o do ePub, Mobi e HTML.

HTML5

O HTML5 é outra alternativa para livros digitais Tipo 1, pois esse formato de arquivo oferece boa parte dos pontos positivos do PDFs e também atende às exigências técnicas dos últimos editais. Os destaques ficam para a compatibilidade praticamente universal (atual, futura e retroativa) com dispositivos de leitura – independente de hardware, software e sistemas operacionais – e para os recursos de design responsivo e possibilidades de indexação/pesquisa no conteúdo por alunos e professores.

Assim como os documentos PDF, o HTML5 atende integralmente à exigência do PNLD de que a distribuição para alunos e professores seja feita por meio de download em um web link localizado dentro do domínio da editora do livro, como por exemplo: www.nomedaeditora.com.br/pnld/xxxx.

Os ponto fracos do HTML5 são, por enquanto, os recursos mais limitados de projeto gráfico (em comparação com as versões impressas e os PDFs) e a maior complexidade do processo de conversão de conteúdos a partir dos arquivos de InDesign. Embora existam ferramentas e procedimentos que facilitam esse processo, eles ainda são pouco conhecidos e não é usual estarem disponíveis nas editoras. São igualmente raros os designers, projetistas gráficos, diagramadores e outros profissionais com experiência na produção de versões digitais nesse formato.

Apesar disso, já há novos desenhos de fluxo de trabalho para editoras, onde arquivos HTML5 ou XML passam a ser a “single source” a partir dos quais os outros formatos (InDesign, DOC, ePub, Mobi etc.) serão produzidos.

Folio

O formato Folio é bastante conhecido por ser amplamente utilizado para gerar versões digitais de revistas periódicas. No entanto, ele tem uma série de contra-indicações no caso dos livros didáticos a serem inscritos no PNLD. A primeira é que quase todo o conteúdo é “rasterizado” – ou seja, convertido em imagens bitmap – o que tem como consequências não apenas um arquivo bastante pesado (em especial quando se trata de livros com centenas de páginas) e cujo conteúdo não pode ser indexado/pesquisado de forma automática e integral. A segunda desvantagem é que o formato demanda a produção de múltiplas diagramações, uma para cada tamanho de tela dos diversos dispositivos de leitura. A terceira é que ele só pode ser visualizado em tablets e smartphones com sistemas iOS e Android ou Kindle Fire. A quarta é que os arquivos Folio só podem ser distribuídos por meio dos ecossistemas proprietários da Apple (App Store), da Amazon (Kindle Newsstand) ou do Google (Google Play). Isso não apenas confronta a exigência do PNLD de distribuição em domínio interno da editora como, na prática, transforma obrigatoriamente essas empresas distribuidoras em parceiras comerciais das editoras.

iBooks

O iBooks é um formato proprietário do iBooks Author, um aplicativo desenvolvido pela Apple, específico para a criação de livros didáticos digitais com amplas possibilidades de inserção de conteúdo interativo e multimídia. O download do aplicativo é gratuito, e diagramar os livros no formato iBooks é bem fácil para quem é da área. No entanto, as limitações são severas: o iBooks Author só roda em computadores com sistema Mac OS e trata-se de um aplicativo bastante fechado: não permite o reaproveitamento direto dos arquivos de InDesign e tampouco a exportação de conteúdo para qualquer outro formato. Em outra palavras as possibilidades de content repurposing (reaproveitamento de conteúdo) são nulas. Além disso, os livros no formato iBooks só podem ser comercializados pelas App Store e iBook Store, e só é possível utilizá-los em tablets que rodem o sistema iOS da Apple.

ePub e Mobi

As tecnologias ePub e Mobi – considerando aqui as suas versões mais maduras e mais adotadas atualmente, ePub2 e KF7 – oferecem a interessante característica conhecida como “layout líquido” (uma forma de design responsivo automático) que adapta a visualização do conteúdo ao formato do dispositivo de leitura. Em compensação, as restrições de projeto e recursos gráficos ainda são muito grandes, mesmo nas versões mais recentes (ePub3 e KF8) o que torna esses formatos mais aplicáveis a livros de texto ou que possuam poucas ilustrações.

Desde que não tenham recursos de proteção contra cópias indevidas (DRM) – o que iria contra um dos itens do edital – os dois podem serem distribuídos de forma simplificada.

O Mobi, no entanto, só pode ser lido por meio de aplicativos gratuitos que podem ser instalados em uma infinidade de dispositivos com diferentes sistemas operacionais. De forma nativa, somente os dispositivos da linha Kindle, fabricados pela Amazon e que também desenvolveu o formato Mobi, conseguem fazer a leitura. Estes, no entanto, são bloqueados por questões comerciais de reconhecerem livros no formato ePub.

Tabela comparativa (clique para ampliar)

PNLD Livros Digitais P

CONCLUSÃO

Ainda que num primeiro momento o cenário pareça excessivamente complicado e restritivo, os dois formatos já se tornaram padrão em outras áreas por conta de suas características positivas supracitadas e principalmente porque foram largamente adotados por inúmeros segmentos comerciais e industriais. O alento é que no de livros didáticos, ainda que eventualmente os PDFs e HTML5 se tornem formatos intermediários a serem substituídos no futuro por outros, a certeza é de que seus conteúdos poderão ser integralmente reaproveitados.

Em relação à escolha das tecnologias a serem adotadas para os livros digitais destinados ao mercado privado, a complexa equação deixa de levar em consideração as restrições técnicas do governo brasileiro e contemplar outra decisões comerciais entre as editoras, distribuidoras de livros eletrônicos, escolas, fabricantes de tablets, empresas de tecnologia etc., um assunto para o próximo artigo.

 

* Ricardo Minoru Horie, atua há mais de vinte anos na indústria gráfica e no segmento editorial, mais especificamente na área de pré-impressão e mídias eletrônicas com treinamentos e consultorias técnicas para empresas, além de ministrar regularmente seminários, palestras, oficinas e cursos pelo País. Autor de mais de 80 livros nestas área de atuação, por mais de uma década colaborou com a edição brasileira da revista Publish, tendo atuado como colunista e editor executivo. Desde 2000 dirige a Bytes & Types, empresa de consultoria em reengenharia de processos para gráficas e editoras.

Reprodução permitida, desde que acompanhada dos créditos e citada origem

 
           

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